Sobre tabus midiáticos

Quando saiu a matéria Machismo sem Fronteiras no jornal laboratório da PUC, pedimos um rápido depoimento para a professora Anna Felmann* sobre a cobertura que a mídia faz dos casos que vemos por aí de estupros. Um trecho de sua fala foi publicado na matéria, mas reproduzo aqui a pergunta e o depoimento completo obtido por email por achá-lo bastante pertinente, especialmente nesses tempos de Marcha das Vadias. É bom nós jornalistas refletirmos sobre nosso meio de atuação e a negligência com que é tratado o assunto da violência contra a mulher nos grandes jornais do país e é bom qualquer pessoa refletir sobre o assunto, já que quando se trata de qualquer violência contra a mulher, a vítima é sempre posta como culpada.

Por que estupro ainda é um tabu tão grande pra se tratar na mídia? E é só na grande mídia que isso acontece? A mídia alternativa abre mais espaço para assuntos mais pesados assim?

Anna: De fato, de um lado existe o silêncio em torno do estupro e isto se explica pelas inúmeras implicações de ordem familiar, psicológica e social que ele acarreta. E, por outro lado, existe a omissão da mídia em relação ao assunto.

Mesmo com todo o discurso sobre a modernidade, não nos livramos totalmente da origem pré-histórica, na qual a eterna vigilância sobre o corpo da mulher acabou gerando um tipo de família nuclear, com base na monogamia e no patriarcado.

Por mais que os discursos da mídia tentem demonstrar a emancipação das mulheres no século 21, enxergamos na omissão dessas matérias um descompasso entre o que se publica e o que de fato a mulher vivencia. A distorção é ainda mais visível em qualquer assunto tabu.

Quando divulgados, estes assuntos geralmente são tratados de forma descritiva, pouco reivindicatória, sem foco na solidariedade e no grupo. Nos poucos textos que aparecem na grande imprensa a solução está centrada basicamente no individual, no pessoal.

Se pensarmos na imprensa feminina o descaso é ainda pior e mais despolitizador. Salvo algumas exceções, as revistas contribuem para reforçar o pessoal em detrimento do social, incentivam o individualismo e o consumismo, evitando assim qualquer polêmica e ou posicionamento direto. Se estivermos de fato vivenciando tempos modernos, a descrição dos fatos e a reflexão sobre os tabus deveriam estar presentes em toda a mídia e, principalmente, neste segmento do jornalismo.

A mídia alternativa produz muito material sobre as questões de gênero e acaba sendo um importante apoio na ação direta contra a reprodução do sistema atual. Ela é capaz de democratizar alguns canais, mas não o mercado de comunicação. Creio ser necessário abrir os caminhos que dialogam com toda a sociedade. Sozinha a mídia alternativa não é capaz de reparar os estragos da grande mídia, que trabalha com alcances abusivamente maiores.

*Anna Feldmann é professora da disciplina Processos de Comunicação Alternativa e Jornalismo na PUC-SP e atual ombusmann do jornal laboratório da universidade, o Jornal Contraponto.

Machismo sem Fronteiras

Mais uma matéria escrita para o Contraponto. Essa saiu na última edição impressa, de março de 2013. Foi escrita por mim e pelas fofíssimas Lu Sudré e Marcela Millan, também estudantes de jornalismo da PUC.

Infelizmente, a pauta surgiu após diversos casos de tentativas de estupro ao redor do mundo, especialmente na Índia, nos EUA e aqui mesmo no Brasil.

Como feministas, julgamos a pauta de extrema importância e pedimos o fim da violência contra a mulher!

Machismo sem Fronteiras

Nos últimos meses, diversos casos colocaram a violência contra a mulher em evidência, gerando onda de protestos ao redor do mundo

Por Letícia Naísa, Lu Sudré* e Marcela Millan**

O machismo, a agressão e a desigualdade entre gêneros transbordam em diversos contextos, e a política e democracia não estão fora desse cenário. A “Primavera Árabe”, por exemplo, foi uma onda de protestos que se espalhou pelo Oriente Médio e norte da África, que derrubou quatro ditadores em um ano, fazendo o povo sair às ruas e lutar pela democracia. Em um movimento legítimo, a democracia e liberdade foram alcançadas por meio da massa, das mãos dos trabalhadores e estudantes, e isso é significativo para a história mundial. Porém, mesmo quando um país passa por um processo como esse, outras mazelas sociais ainda se perpetuam, compondo um problema estrutural. Independente do sistema político, seja um governo democrático representativo, um governo de direita ou de esquerda, o comportamento machista ainda existe. Luta-se pela democracia, pois todos têm direitos de votar e participar ativamente na escolha de seu governante, mas os demais direitos das mulheres, mais uma vez, são deixados à sombra da primavera, acompanhados de um debate conservador e raso, que ignora a real existência do machismo e do sexismo em muitas áreas.

Superficialmente, quando imaginamos um país como o Egito – onde o presidente Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos, renunciou dezoito dias depois do início das manifestações populares – pensamos que ele se apresentaria como um lugar onde a liberdade estaria instaurada para todos os gêneros. Infelizmente, não é bem assim. A Praça Tahrir, que se tornou um símbolo da Primavera Árabe egípcia, foi “palco” de uma tentativa de abuso sexual de uma jornalista francesa, que estava em um link, ao vivo. Com homens ao redor, ela foi coagida até sair da frente da câmera. Segundo o site espanhol “La Sexta”, mais de 80% das mulheres egípcias já sofreram abuso sexual pelo menos uma vez. A repórter dos Estados Unidos, Lara Logan, correspondente da CBS durante a caída de Murabak, afirma ter vivido uma verdadeira agonia, pois também sofreu uma tentativa de abuso sexual. “Quando me tiraram a roupa, lembro de olhar para cima e ver como estavam fotografando com seus celulares”, relatou a jornalista.

Capa da revista Foreign Policy, com o artigo de Mona

Capa da revista Foreign Policy, com o artigo de Mona Eltahawy

Em abril desse ano, José Antonio Lima escreveu uma matéria para a revista Carta Capital, cujo título era: “A Primavera Árabe vai promover o direito das mulheres?”. A matéria desenvolveu-se analisando um artigo publicado pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy, na edição de maio/junho da revista Foreign Policy. O artigo, chamado “Porque eles nos odeiam?”, causou muito alvoroço entre as mulheres do Oriente Médio. Nele, Mona atribui a delicada e desigual situação das mulheres no Oriente Médio à mistura, tóxica, entre a religião e cultura, somada a uma guerra entre homens e mulheres. Segundo a jornalista, a revolução das mulheres tem de ser à parte, uma revolução particular à Primavera Árabe e isso só acontecerá quando os ditadores machistas, sejam eles cobertos por “democracia” ou não, forem derrubados. Afinal, eles são ditadores nas “mentes e nos quartos”.

A questão levantada é se o embrião de democracia, produzido pela Primavera Árabe, fará florescer no Oriente Médio os direitos das mulheres. Em seu artigo, Mona tenta comprovar a misoginia no mundo árabe com uma série de exemplos de violações cometidas contra as mulheres. Ela cita, por exemplo, a proibição das mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Debate leis de países coniventes com violência doméstica contra as mulheres em “casos especiais” e lembra que o assédio sexual é uma prática endêmica na região. Mona cita outras violações ainda mais atrozes, como a mutilação genital, proibida, mas ainda muito comum no Egito; os “testes de virgindade”, também realizados no Egito; as permissões de casamentos entre homens adultos e meninas de 10 ou 11 anos no Iêmen e na Arábia Saudita; ou o casamentos entre vítimas de estupros e seus algozes. O jornalista José Antonio Lima conclui sua matéria afirmando que “No Egito, no Brasil, na Europa ou no Japão, a histeria e a criação de uma guerra de gêneros contribui pouco para equiparar mulheres e homens. A única maneira de fazer isso de forma duradoura, em qualquer país do mundo, é institucionalizar os direitos das mulheres e colocá-los sob a proteção de estados democráticos, longe dos ataques de quem pretende fazer a sociedade, qualquer sociedade, retroceder”. Continuar lendo

Violência sai da tela e mata

Diante do ataque ocorrido em Colorado durante uma sessão do último filme do Batman, eu e minha amiga Jacqueline Elise escrevemos a seguinte matéria para a edição de setembro do jornal Contraponto.

Na época da publicação, não se pensava em acusar a cultura de armas e a venda desenfreada de armamento nos EUA como causa desse tipo de violência. A culpa era sempre atribuída aos videogames violentos, a filmes e toda a indústria de entretenimento. Depois do último ataque ocorrido numa escola em dezembro, o presidente Obama resolveu reavaliar o comércio de armamento dentro do território estadunidense, criando um novo pacote de medidas para controlar a venda de armas.

A cultura de armamento presente nos EUA vem de muito tempo. Os cidadãos realmente acreditam que é de direito de cada um ter uma arma para se proteger contra possíveis invasores ou ameaças, tudo por uma questão de segurança. Pode soar besta, mas existe um episódio de South Park que ilustra muito bem esse clima de tensão que se instaura a partir do momento em que uma população inteira estiver armada.

Além disso, o filme de Michael Moore sobre o atentado em Columbine, “Tiros em Columbine”, ilustra muito bem como funciona a indústria e a cultura de armamentos nos EUA.

Nesse contexto, escrevemos essa matéria, que merecia uma boa atualização graças aos últimos acontecimentos relacionados à lei de armamento. Mas por hora, fiquem com a matéria produzida em setembro. Espero que gostem.

Show de horrores: Violência sai da tela e mata

Tiroteio em cinema no Colorado (EUA) traz à tona o debate sobre a influência dos meios de entretenimento em crimes

Por Jacqueline Elise* e Letícia Naísa

Como se a morte fosse uma brincadeira inocente, o jovem James Holmes de 24 anos entrou em um cinema lotado em Aurora, Colorado, durante a estréia do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e atirou contra a platéia no dia 20 de julho de 2012. Aparentemente, James era fã da saga e se identificava com o vilão, o Coringa. Após a confirmação de 12 mortes e 59 feridos, seu ato tornou-se motivo de choque e indignação ao redor do mundo, e sua imagem foi amplamente reproduzida em jornais e revistas. Assim como James, outros casos como o tiroteio de Aurora ganharam notoriedade pela frieza e indiferença de seus executores e a relação com o entretenimento que eles Continuar lendo