Machismo sem Fronteiras

Mais uma matéria escrita para o Contraponto. Essa saiu na última edição impressa, de março de 2013. Foi escrita por mim e pelas fofíssimas Lu Sudré e Marcela Millan, também estudantes de jornalismo da PUC.

Infelizmente, a pauta surgiu após diversos casos de tentativas de estupro ao redor do mundo, especialmente na Índia, nos EUA e aqui mesmo no Brasil.

Como feministas, julgamos a pauta de extrema importância e pedimos o fim da violência contra a mulher!

Machismo sem Fronteiras

Nos últimos meses, diversos casos colocaram a violência contra a mulher em evidência, gerando onda de protestos ao redor do mundo

Por Letícia Naísa, Lu Sudré* e Marcela Millan**

O machismo, a agressão e a desigualdade entre gêneros transbordam em diversos contextos, e a política e democracia não estão fora desse cenário. A “Primavera Árabe”, por exemplo, foi uma onda de protestos que se espalhou pelo Oriente Médio e norte da África, que derrubou quatro ditadores em um ano, fazendo o povo sair às ruas e lutar pela democracia. Em um movimento legítimo, a democracia e liberdade foram alcançadas por meio da massa, das mãos dos trabalhadores e estudantes, e isso é significativo para a história mundial. Porém, mesmo quando um país passa por um processo como esse, outras mazelas sociais ainda se perpetuam, compondo um problema estrutural. Independente do sistema político, seja um governo democrático representativo, um governo de direita ou de esquerda, o comportamento machista ainda existe. Luta-se pela democracia, pois todos têm direitos de votar e participar ativamente na escolha de seu governante, mas os demais direitos das mulheres, mais uma vez, são deixados à sombra da primavera, acompanhados de um debate conservador e raso, que ignora a real existência do machismo e do sexismo em muitas áreas.

Superficialmente, quando imaginamos um país como o Egito – onde o presidente Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos, renunciou dezoito dias depois do início das manifestações populares – pensamos que ele se apresentaria como um lugar onde a liberdade estaria instaurada para todos os gêneros. Infelizmente, não é bem assim. A Praça Tahrir, que se tornou um símbolo da Primavera Árabe egípcia, foi “palco” de uma tentativa de abuso sexual de uma jornalista francesa, que estava em um link, ao vivo. Com homens ao redor, ela foi coagida até sair da frente da câmera. Segundo o site espanhol “La Sexta”, mais de 80% das mulheres egípcias já sofreram abuso sexual pelo menos uma vez. A repórter dos Estados Unidos, Lara Logan, correspondente da CBS durante a caída de Murabak, afirma ter vivido uma verdadeira agonia, pois também sofreu uma tentativa de abuso sexual. “Quando me tiraram a roupa, lembro de olhar para cima e ver como estavam fotografando com seus celulares”, relatou a jornalista.

Capa da revista Foreign Policy, com o artigo de Mona

Capa da revista Foreign Policy, com o artigo de Mona Eltahawy

Em abril desse ano, José Antonio Lima escreveu uma matéria para a revista Carta Capital, cujo título era: “A Primavera Árabe vai promover o direito das mulheres?”. A matéria desenvolveu-se analisando um artigo publicado pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy, na edição de maio/junho da revista Foreign Policy. O artigo, chamado “Porque eles nos odeiam?”, causou muito alvoroço entre as mulheres do Oriente Médio. Nele, Mona atribui a delicada e desigual situação das mulheres no Oriente Médio à mistura, tóxica, entre a religião e cultura, somada a uma guerra entre homens e mulheres. Segundo a jornalista, a revolução das mulheres tem de ser à parte, uma revolução particular à Primavera Árabe e isso só acontecerá quando os ditadores machistas, sejam eles cobertos por “democracia” ou não, forem derrubados. Afinal, eles são ditadores nas “mentes e nos quartos”.

A questão levantada é se o embrião de democracia, produzido pela Primavera Árabe, fará florescer no Oriente Médio os direitos das mulheres. Em seu artigo, Mona tenta comprovar a misoginia no mundo árabe com uma série de exemplos de violações cometidas contra as mulheres. Ela cita, por exemplo, a proibição das mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Debate leis de países coniventes com violência doméstica contra as mulheres em “casos especiais” e lembra que o assédio sexual é uma prática endêmica na região. Mona cita outras violações ainda mais atrozes, como a mutilação genital, proibida, mas ainda muito comum no Egito; os “testes de virgindade”, também realizados no Egito; as permissões de casamentos entre homens adultos e meninas de 10 ou 11 anos no Iêmen e na Arábia Saudita; ou o casamentos entre vítimas de estupros e seus algozes. O jornalista José Antonio Lima conclui sua matéria afirmando que “No Egito, no Brasil, na Europa ou no Japão, a histeria e a criação de uma guerra de gêneros contribui pouco para equiparar mulheres e homens. A única maneira de fazer isso de forma duradoura, em qualquer país do mundo, é institucionalizar os direitos das mulheres e colocá-los sob a proteção de estados democráticos, longe dos ataques de quem pretende fazer a sociedade, qualquer sociedade, retroceder”. Continuar lendo

Uma outra Revolução

Essa matéria também foi produzida para o Jornal Contraponto, para a edição especial de 2011 (Opressões e Revoluções) junto com o Rafael Albuquerque.

Foi uma matéria produzida ao som de Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros que marcaram tempos de revolução no meio cultural. Foi a matéria que me apresentou Jack Kerouac, Tom Wolfe, Truman Capote, Hunter Thompson, e tantos outros Novos Jornalistas que me deixam apaixonada pela escrita.

Uma outra Revolução

Os movimentos dos anos 1960 que marcaram história no mundo inteiro e influenciaram muitas outras revoluções.

Por Letícia Naísa e Rafael Albuquerque*

“Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Esse era um dos lemas da geração de jovens que perderam seus pais na Segunda Guerra Mundial, suas casas e, nos anos 1960, com o mundo bipolarizado e na iminência de uma possível terceira grande guerra, decidiram mudar o mundo pregando ideias de liberdade, paz, amor, a busca de uma percepção e estilo de vida através do uso de drogas, do sexo livre, da música, da moda, da pintura, da literatura e diversas outras áreas da cultura, além do ativismo político, de manifestações na rua, passeatas e festivais. O mais famoso foi o Woodstock, que aconteceu em 1969 e contou com Janis Joplin, Grateful Dead, The Who, Joan Baez, Jimi Hendrix, entre outros ícones do movimento hippie. A agitação ficou conhecida como contracultura, já que pregava ideias completamente opostas aos costumes e sistema vigentes na época.

Apesar de ser um ponto bem situado na história cultural e comportamental do século XX, o pensamento da criação artística e filosófica de rejeição ao poder hegemônico não tem sua gênese na década da Guerra do Vietnã. De acordo com Guilherme Kujawski, curador de exposições do centro Itaú Cultural, é possível afirmar que desde o século XVII já existia uma classe de artistas composta por jovens que tinham o anseio, a vontade de cortar as amarras com tradições já enraizadas, como a família, a igreja e todo o tipo de hierarquia que atingia e privava a população como um todo, “mas nos anos 1960, lógico, houve uma, vamos dizer assim, uma afirmação maior nesse sentido com a guerra do Vietnã, o movimento hippie”, afirma.

De toda forma, é inegável que a arte subversiva passou – e continua passando – por um processo de evolução durante as décadas seguintes, adquirindo cada vez mais um caráter de protesto. A ideia de que fazer arte é fazer política tornou-se, gradualmente, mais difundida e posta em prática.

Já para o professor Marcus Bastos da PUC-SP, “no fundo a contracultura é isso, uma emergência da cultura juvenil, que ela é localizada, em especial, nos anos 1950, e intensificou nos anos 1960 e primeiro nos EUA e depois espalhado no mundo”. Ele explica que no começo, eram focos diferentes que começaram a ganhar uma atenção maior devido à popularização da música jovem, das drogas, do contexto político da época. Foi uma aceleração da vida contemporânea, “a urbanização começa a ficar mais intensa e rápida, não existia o tal conflito de gerações, e talvez nem mesmo essa noção que nós temos hoje de juventude, porque o mundo demorava tanto pra mudar, que não dava tempo de você ter divergências em relação aos seus pais, por exemplo. Era mais a coisa da continuidade”.

No Brasil, os primeiros passos de um agito cultural crítico da sociedade burguesa surgiram com as vanguardas artísticas do início do século XX, que se Continuar lendo