De olhos bem abertos para Kubrick

Da série: coisas que adorei fazer pra faculdade. Matéria entregue para a aula de Jornalismo Cultural.

De olhos bem abertos para Kubrick

Diretor ganha ambiciosa exposição no Museu da Imagem e do Som

Imagine encontrar a bengala de um estuprador, o machado de um louco, os óculos de uma adolescente assanhada e as máscaras de um baile de orgias reunidos no mesmo espaço. Os objetos fazem parte do universo do diretor de Stanley Kubrick e podem ser encontrados na “Exposição Stanley Kubrick”, que chegou pela primeira vez na América Latina e se encontra no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Mais de 500 itens além dos icônicos citados, como figurinos, documentos originais e fotografias recontam a trajetória de cada obra do cineasta, refletindo sua eficiência, suas manias e seu perfeccionismo com o trabalho. A exposição é divida em 16 ambientes temáticos para cada filme da carreira do diretor. Os destaques ficam por conta das salas de 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado e Laranja Mecânica, além de De Olhos bem Fechados e Lolita, que também ganham ambientes fascinantes.

Cada sala apresenta um cenário de um filme. Na área destinada a 2001, o público entra no clarão de uma nave para encontrar um monólito e o figurino dos macacos posicionado na entrada. Os sinistros corredores do Hotel Overlook d’O Iluminado ganham vida na exposição, as portas dos quartos podem ser abertas para que os documentos e objetos sejam vistos. A sala, no entanto, não é recomendada para pessoas sensíveis. O bar que Alex, de Laranja Mecânica, e sua gangue frequentam também pode ser conferido no interior do museu, somente o leite fica em falta. As trincheiras de Glória Feita de Sangue e o alojamento militar de Nascidos para Matar também marcam presença na exposição.

Quase tudo pode ser tocado e cada espaço também é ambientado pela trilha sonora específica de cada filme, na tentativa de fazer com que o visitante mergulhe fundo na obra de Kubrick. Apesar de muito boa, a ideia é um pouco falha na prática, devido à acústica não favorável do interior do museu. Os sons às vezes se misturam e o clima pode ser quebrado. Mesmo assim, todos os ambientes são muito dinâmicos e interativos, deixando o público afundar-se por completo na trajetória do cineasta, sem deixar nada a desejar com relação à completude dos detalhes de cada obra de Kubrick. A meticulosidade do diretor se faz presente em cada carta e cada roteiro rabiscado dispostos no museu. A visita com certeza é encantadora e pode ser conferida até janeiro de 2014.

Veja mais informações sobre a exposição aqui.

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Uma outra Revolução

Essa matéria também foi produzida para o Jornal Contraponto, para a edição especial de 2011 (Opressões e Revoluções) junto com o Rafael Albuquerque.

Foi uma matéria produzida ao som de Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros que marcaram tempos de revolução no meio cultural. Foi a matéria que me apresentou Jack Kerouac, Tom Wolfe, Truman Capote, Hunter Thompson, e tantos outros Novos Jornalistas que me deixam apaixonada pela escrita.

Uma outra Revolução

Os movimentos dos anos 1960 que marcaram história no mundo inteiro e influenciaram muitas outras revoluções.

Por Letícia Naísa e Rafael Albuquerque*

“Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Esse era um dos lemas da geração de jovens que perderam seus pais na Segunda Guerra Mundial, suas casas e, nos anos 1960, com o mundo bipolarizado e na iminência de uma possível terceira grande guerra, decidiram mudar o mundo pregando ideias de liberdade, paz, amor, a busca de uma percepção e estilo de vida através do uso de drogas, do sexo livre, da música, da moda, da pintura, da literatura e diversas outras áreas da cultura, além do ativismo político, de manifestações na rua, passeatas e festivais. O mais famoso foi o Woodstock, que aconteceu em 1969 e contou com Janis Joplin, Grateful Dead, The Who, Joan Baez, Jimi Hendrix, entre outros ícones do movimento hippie. A agitação ficou conhecida como contracultura, já que pregava ideias completamente opostas aos costumes e sistema vigentes na época.

Apesar de ser um ponto bem situado na história cultural e comportamental do século XX, o pensamento da criação artística e filosófica de rejeição ao poder hegemônico não tem sua gênese na década da Guerra do Vietnã. De acordo com Guilherme Kujawski, curador de exposições do centro Itaú Cultural, é possível afirmar que desde o século XVII já existia uma classe de artistas composta por jovens que tinham o anseio, a vontade de cortar as amarras com tradições já enraizadas, como a família, a igreja e todo o tipo de hierarquia que atingia e privava a população como um todo, “mas nos anos 1960, lógico, houve uma, vamos dizer assim, uma afirmação maior nesse sentido com a guerra do Vietnã, o movimento hippie”, afirma.

De toda forma, é inegável que a arte subversiva passou – e continua passando – por um processo de evolução durante as décadas seguintes, adquirindo cada vez mais um caráter de protesto. A ideia de que fazer arte é fazer política tornou-se, gradualmente, mais difundida e posta em prática.

Já para o professor Marcus Bastos da PUC-SP, “no fundo a contracultura é isso, uma emergência da cultura juvenil, que ela é localizada, em especial, nos anos 1950, e intensificou nos anos 1960 e primeiro nos EUA e depois espalhado no mundo”. Ele explica que no começo, eram focos diferentes que começaram a ganhar uma atenção maior devido à popularização da música jovem, das drogas, do contexto político da época. Foi uma aceleração da vida contemporânea, “a urbanização começa a ficar mais intensa e rápida, não existia o tal conflito de gerações, e talvez nem mesmo essa noção que nós temos hoje de juventude, porque o mundo demorava tanto pra mudar, que não dava tempo de você ter divergências em relação aos seus pais, por exemplo. Era mais a coisa da continuidade”.

No Brasil, os primeiros passos de um agito cultural crítico da sociedade burguesa surgiram com as vanguardas artísticas do início do século XX, que se Continuar lendo