um café do caralho

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Você sempre dizia que pra conquistar uma mulher, um homem tinha que saber fazer um bom café. Você sabia fazer um café do caralho. E colocava a quantidade certa de açúcar, porque a gente combinava muito no quesito formiga. Mas mesmo assim a gente não aguentava a palha italiana de capuccino inteira, porque era muito doce. Vai entender. Às vezes era só de palha italiana que a gente não entendia. Mas talvez tivesse muito mais coisa que a gente não estava conseguindo entender naquilo que a gente tinha.

Depois que você partiu, eu achei que nunca mais beberia um café tão bom, com o açúcar na medida certa. Mas acho que aprendi a fazer café sozinha, porque dessa vez não senti falta do cheiro, nem do gosto. Talvez seja muito cedo pra sentir saudades. Talvez amanhã cedo eu tenha preguiça de ligar a cafeteira. Mas consigo passar uns dias sem o seu café.

Não sei quando foi que percebi que poderia passar um tempo isso. Não lembro quando aprendi a fazer meu próprio café. Talvez nem você saiba que eu já sei fazer isso sozinha. Mas agradeço por me deixar aqui, sentada no meu canto, lendo qualquer coisa sobre magia e sentindo o gosto amargo do café com muito açúcar. Todo mundo dizia que a gente ia morrer de diabetes.

Você dizia que quando descobrisse que tinha diabetes podia se preocupar com isso. Eu te achava engraçado, sabe. Mas talvez fosse efeito do seu café, não sei. A gente nunca sabia. A gente nunca sabia de nada. Às vezes foi isso que faltou, a gente só sabia fazer café e colocar açúcar, mas a gente não mexia direito e deixava tudo ali no fundo, acumulando. Talvez tenha sido isso, sabe, a gente não é tão forte assim pra lidar com doce, nem a palha italiana a gente aguenta.

Mas a verdade, todo mundo sabe, é que você gosta de chá. Apesar de fazer um café do caralho.

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Dor de amor

amor

A menina, coitadinha, chorava e soluçava num cantinho do metrô. O amigo ao seu lado tentava dizer mil palavras de consolo, mas nada que acalmasse aquele coração despedaçado. A moça que observava de longe ficou quietinha, vendo aquele chororô e lembrando-se dos últimos anos da sua vida. Vai e volta, bate-boca, sexo de reconciliação, lua-de-mel, frustrações, choros histéricos em lugares públicos, noites e noites em claro em companhia das lembranças e lágrimas infinitas.

Ah, menina levante tua cabeça, não chore assim, vá. Uma mocinha tão bonita derramando lágrimas por um moço tão babaca. Não pode não. Ele traiu, você chorou, mas já passou. Vamos lá, lave o rosto, veste uma saia Continuar lendo

“Próxima estação, Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”

Crônica originalmente publicada no blog 9 Focos e na edição 74 do Jornal Contraponto.

por Letícia Naísa

As pessoas se agitam e quando as portas abrem, se empurram, correm e gritam umas com as outras. Eu fico ali, de lado, espiando. Um banco velho, do metrô antigo, um banco daqueles marronzinhos, sabe, localizado estrategicamente ao lado da porta esquerda do trem.  Vejo muito, não falo nada, afinal, sou um banco. Um banco muito disputado, modéstia à parte, já que fico ao lado da porta. A única e melhor coisa que faço é observar as pessoas e suas atitudes no metrô. Pessoas são extremamente intrigantes.

Os banquinhos marronzinhos que se divertem no metrô caótico de SP (foto: reprodução)

Eu sempre me pergunto como serão as pessoas em casa, no trabalho, com os outros. De manhã, quando saio da primeira estação da linha, o metrô é silencioso, as pessoas mal se olham, as que vão sentadas, dormem. Já às 18h da tarde, é diferente, o vagão lota de gente cansada, porém falante. Comentam o dia, reclamam dos chefes, do metrô cheio, do salário ruim, das tarefas de casa, da mulher, do marido, dos filhos… A cada estação nova, conversas surgem, algumas animadas, outras entediantes.

Diferentes tipos, cores e tamanhos, assim, cada uma é uma. Gosto especialmente dos idosos, esses são bonzinhos, não costumam fazer muito barulho, mas gostam de dar olhares feios a casais ou grupos de amigos barulhentos. Quanto aos casais, Continuar lendo