Descoberta

Sentada sobre uma longa saia rodada observo bem a moça à minha frente. Cabelos longos docemente trançados enfeitados com flores e pequenos brilhos. A franja loira ondulada caída moldando um rosto fino e branco, que exala uma vida inteira pela frente. Meus olhos correm de cima a baixo por aquele corpo. Levanto-me e me aproximo. A luz vinda da janela ainda está fraca, não consigo mais enxergar tantos detalhes. Mas a silhueta que vejo é bem definida por aquele corpete que tanto custou a conseguir entrar e por aquela saia enorme que cobre as pernas. Como será que é o reflexo das pernas?

Corro meus olhos dos pés descalços que tocam o chão frio de madeira até os olhos parados à minha frente. Olhos cor de mel, pupilas estupidamente dilatadas, cílios longos e curvos no mesmo tom claro do cabelo. Os olhos fitam todo o rosto nu. Pequenas sardas brotam nas bochechas e os olhos arregalam-se ao perceberem tal defeito. A mão sobe automaticamente à boca. Peça macia, úmida e maleável. Abro e fecho a boca com os dedos simplesmente para sentir o controle que as mãos têm sobre o resto do corpo desconhecido.

Respiro fundo e continuo meu caminho. Vejo a jovem abaixar a mão que subiu involuntariamente e pousá-la sobre a cintura. Jogo meu tronco para frente e encaro aquele decote. O vestido apertado faz dois volumes se sobressaírem debaixo do tecido. Pele nua e avolumada. Será macia? Penso em tocar. Mas uma mão está travada na cintura. A mão livre hesita, mas desenha o caminho do pescoço ao contorno do decote. Ela para ao sentir uma palpitação no peito esquerdo. Será ali a casa da sua alma? Será que ainda terei uma alma depois dessa exploração suja?

A culpa toma conta do peito palpitante, que palpita cada vez mais rápido. A respiração fica ofegante e mais uma vez vejo a moça da saia sentada olhando fixamente nos meus olhos. Os meus olhos nos meus próprios olhos. Serei eu mesma me olhando? Não entendo como uma parede pode duplicar a mim mesma. Com as mãos pousadas nos joelhos, resolvo continuar a descoberta. Se aquele corpo é meu, devo conhecê-lo. Não?

Aos poucos subo a saia para observar o tal reflexo das pernas. São brancas, com pelos levemente curtos e dourados. Conforme a saia sobe, os olhos se arregalam com a exatidão refletida na parede. Os banhos são tão rápidos e raros que a memória sobre as pernas é falha. O pano todo da saia longa não mais cabe nas mãos, então rapidamente as pernas são cobertas novamente. Mas a curiosidade é tanta pelo resto. Como serão as coxas da moça refletida? De pé, com as mãos trêmulas e suadas, afrouxo o fio do corpete para tirar a saia com facilidade.

A mulher sorri para mim com malícia, as mãos puxam a saia com força para o chão e junto descem as peças íntimas. Ali estão as coxas nuas. Grossas. Brancas. Quentes. Os olhos evitam o sexo e as mãos escorregam do quadril até os joelhos. O rosto angelical agora está vermelho e quente. Deve ser por causa do sol que agora se faz realmente presente no aposento – tento me enganar. Gotas de suor começam a se formar timidamente no topo da testa e no vão entre os seios. Um dos dedos escorrega timidamente por entre os dois volumes. A mão livre afrouxa cada vez mais o corpete. Até a queda.

O corpo inteiro estremece ao receber uma leve corrente de ar vinda da janela e lágrimas de culpa começam a brotar dos olhos. De onde vêm as lágrimas? Da alma? Eu choro comigo mesma à minha frente. Com os olhos embaçados, não quero enxergar o corpo nu e cru daquela forma, tento esconder o rosto e fugir do sorriso malicioso do meu eu à minha frente. Sentada aos prantos em frente àquele reflexo sinto cada parte do meu corpo vibrar com cada soluço solto. À minha frente, a moça ri da minha tolice, cada vez mais alto.

De repente, vejo que a gargalhada sai da casa da minha alma, do meu peito. Com os olhos inchados, rio comigo mesma à minha frente. Deitadas no chão, rimos e choramos juntas. Vivemos juntas. Simultaneamente levantamos, nos encaramos. Nuas. Brancas. Quentes. Não vejo mais uma moça à minha frente. Eu me vejo. Eu sou mulher branca de cabelos claros, suavemente trançados, com flores nos cabelos. Tenho uma franja que cai sobre os meus olhos cor de mel, agora vermelhos, que observam meu corpo nu de cima a baixo. Primeiro o rosto com todos os meus detalhes e defeitos. Depois meus seios redondos e a cintura ainda marcada por causa do corpete que custou a entrar. As coxas grossas. Os pés descalços sobre o chão de madeira ainda frio.

Éramos duas.

Somos uma.

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