Violência sai da tela e mata

Diante do ataque ocorrido em Colorado durante uma sessão do último filme do Batman, eu e minha amiga Jacqueline Elise escrevemos a seguinte matéria para a edição de setembro do jornal Contraponto.

Na época da publicação, não se pensava em acusar a cultura de armas e a venda desenfreada de armamento nos EUA como causa desse tipo de violência. A culpa era sempre atribuída aos videogames violentos, a filmes e toda a indústria de entretenimento. Depois do último ataque ocorrido numa escola em dezembro, o presidente Obama resolveu reavaliar o comércio de armamento dentro do território estadunidense, criando um novo pacote de medidas para controlar a venda de armas.

A cultura de armamento presente nos EUA vem de muito tempo. Os cidadãos realmente acreditam que é de direito de cada um ter uma arma para se proteger contra possíveis invasores ou ameaças, tudo por uma questão de segurança. Pode soar besta, mas existe um episódio de South Park que ilustra muito bem esse clima de tensão que se instaura a partir do momento em que uma população inteira estiver armada.

Além disso, o filme de Michael Moore sobre o atentado em Columbine, “Tiros em Columbine”, ilustra muito bem como funciona a indústria e a cultura de armamentos nos EUA.

Nesse contexto, escrevemos essa matéria, que merecia uma boa atualização graças aos últimos acontecimentos relacionados à lei de armamento. Mas por hora, fiquem com a matéria produzida em setembro. Espero que gostem.

Show de horrores: Violência sai da tela e mata

Tiroteio em cinema no Colorado (EUA) traz à tona o debate sobre a influência dos meios de entretenimento em crimes

Por Jacqueline Elise* e Letícia Naísa

Como se a morte fosse uma brincadeira inocente, o jovem James Holmes de 24 anos entrou em um cinema lotado em Aurora, Colorado, durante a estréia do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e atirou contra a platéia no dia 20 de julho de 2012. Aparentemente, James era fã da saga e se identificava com o vilão, o Coringa. Após a confirmação de 12 mortes e 59 feridos, seu ato tornou-se motivo de choque e indignação ao redor do mundo, e sua imagem foi amplamente reproduzida em jornais e revistas. Assim como James, outros casos como o tiroteio de Aurora ganharam notoriedade pela frieza e indiferença de seus executores e a relação com o entretenimento que eles estabeleceram, seja propositalmente ou não.

O fato de filmes, livros, videogames e estilos musicais estarem associados a ações violentas despertam a curiosidade e o medo das pessoas. Veículos de comunicação dedicam espaços para o debate do tema e por vezes tentam encontrar as causas dos crimes, sendo que muitas vezes elas flertam com a vida pessoal do criminoso e sua relação com o entretenimento. Entretanto, até hoje não é possível dizer com propriedade se, em todos os casos, os meios de diversão e lazer influenciam direta ou indiretamente nas escolhas e ações de pessoas como James Holmes e outros que vieram antes dele.

Em abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira atirou e matou 10 meninas e dois meninos dentro de seu antigo colégio, a Escola Municipal Tasso de Oliveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro. Logo após o choque da tragédia, no dia 9 de abril, a versão virtual do jornal O Globo tentou traçar uma possível causa para os acontecimentos. Além de argumentar sobre um suposto fanatismo religioso por parte de Wellington, o jornal também declarou que o antigo blog do jovem passava informações sobre jogos de violência. Os dois casos se aproximam bastante na questão da culpabilização dos meios de entretenimento, James Holmes era fã da saga Batman e se identificava muito com o vilão Coringa.

Para o psiquiatra Guido Arturo Palomba, após realizar um estudo, em 1996, com 6 mil jovens que agrediram ou mataram pais e familiares, o crime e os jogos possuem relação a partir do momento em que a violência virtual torna-se comum para aquele que está jogando após um longo período de tempo. Ao passar muito tempo inserido no contexto fictício do jogo, a confusão entre real e virtual passa a ser constante, fazendo com que o jogador não tenha perfeito discernimento de seus atos e suas consequências, podendo repetir ações violentas.

Mesmo sendo um estudo de 16 anos atrás, provou-se muito atual e essa teoria da influência dos jogos alimentou diversas análises e matérias jornalísticas sobre os ataques, mas sem uma pesquisa profunda sobre o passado, a personalidade ou os hábitos desses jovens. Pior de tudo, sem uma única contextualização da organização social e do tempo em que eles se encontram. É inquestionável o fato de que os meios de entretenimento influenciam nossas ações, mas ataques como os de Wellington e de James podem ser explicados somente por esse viés? Para o professor de ensino médio, Ivan Oliveira, é impossível encontrar uma única causa para todos os ataques deste gênero. “Quando você assiste um filme dramático, é muito comum você sair do cinema cheio de sensações e se você assiste um filme do gênero, com personagens caricaturados, bem construídos, também não dá pra negar que possa sair dali afetado,influenciado por esses personagens. Agora, dá pra ressaltar também que se você se permite ser influenciado a tal ponto de achar que você representa aquele personagem na realidade, acho que cabe pensar também alguma síndrome, alguma psicopatia”, diz.

The Dark Knight

Talvez a nossa mídia imediatista acredite que pensar pelo viés do entretenimento violento seja a melhor explicação, já que este pensamento, sem qualquer análise profunda, pode trazer um maior conforto àqueles que estão acompanhando cada caso, pois a culpa está longe do alcance. Essa explicação, contudo, se torna sensacionalista e simplista dentro das páginas dos jornais e a violência é encarada de forma individual e pontual, sendo que ela está presente no cotidiano de pessoas, que recebem mensagens sutis de demonstrações de crimes através de outros canais diferentes de jogos ou filmes violentos. É possível que exista na mídia e no cotidiano uma cultura da violência. “Nós somos atravessados por vários discursos a todo o momento, que são reforçados constantemente, então quando você pensa no discurso da prática da violência, você pode visualizar esse discurso e ser refém dele quando você assiste a uma novela, a um filme, a uma propaganda na tevê. Nós estamos sempre travando contato com essa informação, agora o que eu acho importante é você ter um grau de reflexão e autonomia para distanciar ficção de realidade”, afirma Ivan. É neste ponto que o papel do professor é importante, já que ele deve apresentar uma reflexão, além do filme, para que o aluno consiga diferenciar ficção e realidade e tenha uma noção de causa e consequência.

É comum também a culpa de acontecimentos como estes ser transferida para parcelas da sociedade – ou a sociedade como um todo –, de modo que não haja uma figura concreta para julgar e condenar, o que também causa certo conforto diante destas situações. Porém, para o jornalista Eugênio Bucci, “a sociedade forma esses criminosos, forma as vítimas deles, forma os jornalistas e também os juízes que vão julgá-los. Não há sentido em culpar uma sociedade doente, pois somos produtos dessa mesma sociedade e, a nosso juízo, não estamos doentes, mas eles (os criminosos e a sociedade) estão”. Em casos como estes, confirma-se a teoria de que a análise individual de cada crime seria o melhor método para a compreensão de suas causas, que vão desde a influência e falta de reflexão sobre jogos ou filmes violentos até uma doença psicológica. Além dessa análise, a cobertura jornalística também deve ser repensada para que não continue alimentando a cultura da violência presente na nossa sociedade e transforme esses casos em novos filmes policiais que podem influenciar novos comportamentos doentios de qualquer espectador.

*jacqueline.elisew@gmail.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s