Uma outra Revolução

Essa matéria também foi produzida para o Jornal Contraponto, para a edição especial de 2011 (Opressões e Revoluções) junto com o Rafael Albuquerque.

Foi uma matéria produzida ao som de Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros que marcaram tempos de revolução no meio cultural. Foi a matéria que me apresentou Jack Kerouac, Tom Wolfe, Truman Capote, Hunter Thompson, e tantos outros Novos Jornalistas que me deixam apaixonada pela escrita.

Uma outra Revolução

Os movimentos dos anos 1960 que marcaram história no mundo inteiro e influenciaram muitas outras revoluções.

Por Letícia Naísa e Rafael Albuquerque*

“Não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Esse era um dos lemas da geração de jovens que perderam seus pais na Segunda Guerra Mundial, suas casas e, nos anos 1960, com o mundo bipolarizado e na iminência de uma possível terceira grande guerra, decidiram mudar o mundo pregando ideias de liberdade, paz, amor, a busca de uma percepção e estilo de vida através do uso de drogas, do sexo livre, da música, da moda, da pintura, da literatura e diversas outras áreas da cultura, além do ativismo político, de manifestações na rua, passeatas e festivais. O mais famoso foi o Woodstock, que aconteceu em 1969 e contou com Janis Joplin, Grateful Dead, The Who, Joan Baez, Jimi Hendrix, entre outros ícones do movimento hippie. A agitação ficou conhecida como contracultura, já que pregava ideias completamente opostas aos costumes e sistema vigentes na época.

Apesar de ser um ponto bem situado na história cultural e comportamental do século XX, o pensamento da criação artística e filosófica de rejeição ao poder hegemônico não tem sua gênese na década da Guerra do Vietnã. De acordo com Guilherme Kujawski, curador de exposições do centro Itaú Cultural, é possível afirmar que desde o século XVII já existia uma classe de artistas composta por jovens que tinham o anseio, a vontade de cortar as amarras com tradições já enraizadas, como a família, a igreja e todo o tipo de hierarquia que atingia e privava a população como um todo, “mas nos anos 1960, lógico, houve uma, vamos dizer assim, uma afirmação maior nesse sentido com a guerra do Vietnã, o movimento hippie”, afirma.

De toda forma, é inegável que a arte subversiva passou – e continua passando – por um processo de evolução durante as décadas seguintes, adquirindo cada vez mais um caráter de protesto. A ideia de que fazer arte é fazer política tornou-se, gradualmente, mais difundida e posta em prática.

Já para o professor Marcus Bastos da PUC-SP, “no fundo a contracultura é isso, uma emergência da cultura juvenil, que ela é localizada, em especial, nos anos 1950, e intensificou nos anos 1960 e primeiro nos EUA e depois espalhado no mundo”. Ele explica que no começo, eram focos diferentes que começaram a ganhar uma atenção maior devido à popularização da música jovem, das drogas, do contexto político da época. Foi uma aceleração da vida contemporânea, “a urbanização começa a ficar mais intensa e rápida, não existia o tal conflito de gerações, e talvez nem mesmo essa noção que nós temos hoje de juventude, porque o mundo demorava tanto pra mudar, que não dava tempo de você ter divergências em relação aos seus pais, por exemplo. Era mais a coisa da continuidade”.

No Brasil, os primeiros passos de um agito cultural crítico da sociedade burguesa surgiram com as vanguardas artísticas do início do século XX, que se manifestaram fortemente através da literatura modernista, da Semana de Arte Moderna de 1922, e da arte. Contudo, o movimento de contracultura que abalou o mundo nos anos 1960 tomou grande força no país por causa do contexto político da época, do golpe militar de 1964. O período militar durou 21 anos e foi capaz de mudar a cabeça de toda uma geração – e tem seus reflexos na sociedade até hoje. Foi uma geração de jovens educados para servir e amar o país, seguindo fielmente a “ordem e progresso”. Os bravos que lutaram contra o regime opressor foram presos, torturados, exilados e, eventualmente, mortos.

Nessa época, o movimento estudantil ganhou grande adesão e se destacou, em especial, na PUC-SP, que foi invadida em 1977. Grande parte dos estudantes era artista e tinha conhecimento do movimento cultural que propunha uma reflexão e, quem sabe, até uma revolução (não somente no âmbito cultural, mas também político). Então nessa época, a luta política foi feita não somente através de manifestações de rua, mas também e principalmente, da música de Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, entre muitos outros marginalizados.

“Eu vejo o movimento de contracultura como uma crítica contra a classe burguesa dos anos 1960. A primeira vez que apareceram essas manifestações culturais, a sociedade tinha enraizada muitos valores de intolerância, e os modos de vida alternativa saíram daquele padrão unitário que existia nos anos 1960, e no Brasil, na ditadura Vargas, esse modo de vida burguês foi fortemente contestado e a crítica foi, de certa maneira, bem assimilada”, comenta Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP.

“Acho que o final dos 1960 e o início dos 1970 foram bastante (revolucionários). Você tem vários acontecimentos, como o maio de 68 na França. Existem também um monte de simbolismos, eu acho que ele (os acontecimentos de Maio de 68) foi um símbolo de um processo maior da cultura do início dos anos 1970”, completa Ortellado.

Arte política

Nada passa a ser por acaso, e até o uso proibido de maconha e LSD é uma atitude de protesto contra os “bons costumes” vigentes na sociedade. A música é considerada puro barulho pelos mais velhos, mas as letras questionam tudo. Até a moda entra na linha da subversão: as mulheres começam a usar calças (como os homens!) nas ruas, os garotos deixam a barba e os cabelos crescerem (como as mulheres!) e usam roupas rasgadas. Os artistas “fazem a chamada arte política. É muito difícil delinear a diferença entre ativismo e fazer artístico com relação a esses artistas. São artistas que tem o anseio de mudar a sociedade através da arte. Através de uma conscientização, uma sensibilização das pessoas que vão olhar ou participar daquela obra”, diz Kujawski.

Na segunda metade da década de 1970 o movimento punk também surgiu como uma reação da classe trabalhadora e marginalizada, especialmente na Inglaterra. Grupos como o The Clash, Sex Pistols e Siouxsie and the Banshees são ícones desta época. “O punk foi a primeira vez que a música surgiu como uma cultura de massa, pois era mais para uma vanguarda artística. Eu acho que o punk é uma modalidade de expressão contemporânea, porque ela é individualista. Eu acredito que tentou se criar essa parte do individualismo pra criticar. Porque não deixa de ser uma forma radical de democratização da produção, da criação, da música, da informação. É a forma da arte, da auto expressão individual”, explica Ortellado. “Ele começa como uma coisa completamente lateral, com um excesso de rock e rebeldia e vai evoluindo depois como uma articulação. Vai se tornando mais ideológico e mais interessante, porque se transforma numa forma de expressão da classe trabalhadora”, completa.

A insatisfação com o sistema capitalista não emergiu apenas no cenário musical. A literatura também foi um campo de bastante destaque, onde a linguagem, contrariando todas as formalidades de escritores e jornalistas ‘velhos e caretas demais’ para a juventude, buscava uma maior informalidade e proximidade da vida real. A narração procurava experiências vividas à flor da pele, às vezes levadas aos limites em busca de um estado completamente diferente do que era tido como o padrão da sociedade estadunidense.

Os autores Beatniks, apesar de serem alguns anos ‘mais jovens’ que os hippies, ilustram muito bem o que pode ser chamado de uma literatura transgressora para aquela época. Inevitavelmente liderados por Jack Kerouac, mesmo que isso pareça um senso comum, eles escreveram sobre longas viagens que começavam sem destino e terminavam sem qualquer cerimônia, bastante influenciados pelo ritmo frenético do – ainda marginalizado àqueles anos – jazz, sobre relações amorosas sem muita preocupação em assumir um compromisso e um inexplicável fascínio pela costa oeste dos Estados Unidos. Tudo isso misturado a muitas bebidas e substâncias alucinógenas, como não poderia ser diferente, e estradas que os levavam a lugares distantes não apenas geograficamente, mas encontravam pessoas e realidades nas profundezas do país completamente opostas às que existiam em Nova Iorque ou Washington DC.

Mais tarde, já nos anos 1960, até o jornalismo recebeu influencia dessa literatura transgressora nos EUA, com o surgimento do chamado Novo Jornalismo, que relata fatos como se fossem obras de literatura. Grandes nomes como Tom Wolfe e Truman Capote tornaram a prática conhecida. Hunter Thompson pode ser apontado como o mais radical deles, pois criou o gênero de jornalismo chamado gonzo, em que ele mesmo fazia loucuras como se drogar e beber excessivamente para escrever seus livros.

Velhas novas tecnologias

Não somente de arte se alimentou a contracultura: a alta tecnologia também esteve presente no processo.  A informática começou a dar os seus passos iniciais nesse período, e os primeiros microprocessadores foram lançados na década de 1970. Foi uma época de transição, pois aqueles hippies da primeira metade dos anos 1960 estavam tendo filhos, se casavam e “quando esse sonho da contracultura foi por água abaixo, essas pessoas que estavam na costa oeste dos EUA começaram a se dedicar às indústrias de tecnologia”, explica o professor Marcus Basto com o exemplo de Steve Jobs para ilustrar este momento, que era zen-budista e vegetariano, e até chegou a visitar seu guru na Índia. Jobs poderia ser considerado muito novo para ser hippie e muito velho para ser hacker, “ele era uma espécie de transição”.

Através da idéia de democratização que o movimento da contracultura pregava, surgiam grupos de garagem, nos quais os jovens começavam a mexer com eletrônica e programação. Isso criou uma certa informalidade nas empresas da área, como a possibilidade de trabalhar de calça jeans e cabelo longo, que hoje parece normal, mas na época, era um espanto. Grupos que se reuniam desta maneira eram lugares “onde as pessoas começavam a mexer com eletrônica e programação, e dentro de uma ética muito ligada ao que eles tinham sonhado dentro da contracultura, que era de compartilhamento, de não propriedade daquelas coisas, de uma maneira democratização do conhecimento. Então, num certo sentido, essas pessoas vinham de um sonho juvenil que eles transportaram pra um tipo de indústria que estava surgindo e que poderia implementar uma série daqueles valores”, explica o professor Bastos.

Diante de tais fatos, não é difícil estabelecer um paralelo na história entre os ideais e a ideologia pregada pela contracultura dos anos 1960 e as atuais circunstâncias em que vivemos, onde a Internet ultrapassa facilmente qualquer barreira geográfica e garante fácil acessibilidade a arquivos literários, musicais, cinematográficos etc. É possível afirmar que nem o Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros proibidos pela Igreja Católica, resistiria nos anos 2000.  “Parece pouca coisa, mas imagina que com um celular uma pessoa que não tem muitas condições de comprar equipamentos mais sofisticados consegue se comunicar com o Japão, visitar site de tecnologia da Índia”, aponta o professor.

A tecnologia apesar de ter esse uso “subversivo”, de espalhar os movimentos e questionar muitas vezes a idéia de democracia, tem seu lado criticável, de acordo com Marcus Bastos, pois hoje “as pessoas têm a carga de trabalho reduzida pra 17 horas de descanso no final de semana. Então a lei diz que você tem direito a descansar 48 horas, mas como você lê email, fala por celular e continua a trabalhar fora do horário, esse número caiu pra 17”.

Vendidos

É possível perceber que a revolução cultural influenciou diversas áreas além da arte, mas o sistema econômico foi o único que não aceitou essa influência. Pelo contraio, o capitalismo selvagem que temos hoje absorveu completamente os movimentos de contestação, que acabaram virando “só arte”. As bandas punks começaram a fazer um grande sucesso e os artistas a ganhar muito dinheiro com isso tudo, o neoliberalismo ajudou muito, e surgiu uma categoria de artistas que produzia arte para ser vendida e consumida, não para reflexão e contestação, “artistas que pensam apenas em criar obras para serem vendidas nas grandes feiras, isso movimenta bilhões de dólares. Você vai em um evento com ao bienal de Veneza você iates aportando”, diz Kujawski.

O capitalismo é autodestrutivo, mas também conseguiu esquecer grande parte do sentido de uma revolução artística. Hoje, o símbolo de “paz e amor”, grande marca dos hippies, por exemplo, virou estampa de camisetas de grifes, pingentes, que são vendidos, a própria idéia de paz e amor é vendida através desses produtos. “é questão do brand. Tá associado o brand com a cultura e isso é muito bom pra empresa e marcas”, diz Kujowski.

Apesar de tudo, de acordo com ele, a esperança não deve ser perdida, já que no capitalismo é assim: “se eu não posso lutar contra meu inimigo, eu vou me juntar à ele. E se juntando à ele, você cria uma cooptação. Eu acho que as coisas mais interessantes estão acontecendo fora dessas cooptações. Você pode até dizer ah, teve um Festival de Cinema, e tinha a Petrobras por trás patrocinando. Sempre tem alguma empresa por trás. Mas, por exemplo, foram discutidas coisas altamente revolucionárias lá. O movimento revolucionário é cooptado pelo capitalismo e ele começa a agir, vamos dizer em uma expressão, no ventre da besta”.

*rafael.gomes.albuquerque@gmail.com

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