“Próxima estação, Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem”

Crônica originalmente publicada no blog 9 Focos e na edição 74 do Jornal Contraponto.

por Letícia Naísa

As pessoas se agitam e quando as portas abrem, se empurram, correm e gritam umas com as outras. Eu fico ali, de lado, espiando. Um banco velho, do metrô antigo, um banco daqueles marronzinhos, sabe, localizado estrategicamente ao lado da porta esquerda do trem.  Vejo muito, não falo nada, afinal, sou um banco. Um banco muito disputado, modéstia à parte, já que fico ao lado da porta. A única e melhor coisa que faço é observar as pessoas e suas atitudes no metrô. Pessoas são extremamente intrigantes.

Os banquinhos marronzinhos que se divertem no metrô caótico de SP (foto: reprodução)

Eu sempre me pergunto como serão as pessoas em casa, no trabalho, com os outros. De manhã, quando saio da primeira estação da linha, o metrô é silencioso, as pessoas mal se olham, as que vão sentadas, dormem. Já às 18h da tarde, é diferente, o vagão lota de gente cansada, porém falante. Comentam o dia, reclamam dos chefes, do metrô cheio, do salário ruim, das tarefas de casa, da mulher, do marido, dos filhos… A cada estação nova, conversas surgem, algumas animadas, outras entediantes.

Diferentes tipos, cores e tamanhos, assim, cada uma é uma. Gosto especialmente dos idosos, esses são bonzinhos, não costumam fazer muito barulho, mas gostam de dar olhares feios a casais ou grupos de amigos barulhentos. Quanto aos casais, esses são abusados. Alguns gostam de excessivas demonstrações de afeto, é como se mais ninguém (inclusive os pobres bancos) estivesse presente. Já os grupos de amigos barulhentos querem que todos saibam que estão ali.

Minha estação favorita com certeza é a Sé, ela é um respiro de novidades. Só não acho que ela ganha dos terminais, porque é quando acontece aquele momento mágico (para nós, bancos), em que, primeiro, o vagão está vazio e as pessoas começam a entrar violenta e rapidamente para pegar lugar, há um desespero no ar por um assento, não importando se descerão logo ou não, o importante é a satisfação de sentar-se e arrancar olhares invejosos de quem ficou de pé; alguns são educados e dão lugares às mulheres e idosos ou seguram as bolsas que parecem mais pesadas; e segundo, o vagão lotado esvazia-se, o silêncio toma conta, só podemos ouvir o som do trem movimentando-se sobre os trilhos, preparando-se para uma nova viagem. Enfim, estava falando da Sé, a estação mais infernal na opinião dos passageiros, mas a mais divertida para os bancos, pois nos horários de pico, somos os objetos mais desejados. Bem, divertida em termos, porque algumas pessoas são muito agressivas, principalmente de manhã, quando estão com pressa. Mas a cada passagem pela Sé, tanto de ida quando de volta, as coisas se renovam, é como se ela fosse o posto de abastecimento da linha vermelha, o trem quase esvazia quando a porta da esquerda se abre e lota de novo quando é a vez da direita se abrir.

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